Lesão do ligamento cruzado anterior
- Rafael Vieira
- 21 de jun.
- 9 min de leitura

O que é o Ligamento Cruzado Anterior (LCA) e quais são suas funções?
O ligamento cruzado anterior (LCA) é uma das principais estruturas responsáveis pela estabilidade do joelho. Localizado no centro da articulação, ele conecta o fêmur (osso da coxa) à tíbia (osso da perna), cruzando-se com o ligamento cruzado posterior (LCP), formando o que é conhecido como os “ligamentos cruzados”.

Qual é a função do LCA?
O ligamento cruzado anterior desempenha um papel fundamental no controle dos movimentos do joelho. Suas principais funções são:
Impedir que a tíbia se desloque excessivamente para frente em relação ao fêmur;
Controlar os movimentos de rotação do joelho, especialmente durante mudanças rápidas de direção;
Contribuir para a estabilidade da articulação durante atividades esportivas e do dia a dia;
Trabalhar em conjunto com os músculos, meniscos e outros ligamentos para manter o joelho estável.
Por que o LCA é importante?
A integridade do LCA é essencial para movimentos que envolvem corrida, saltos, mudanças bruscas de direção e desacelerações. Lesões desse ligamento são frequentes em esportes como futebol, vôlei, basquete e esqui, podendo causar sensação de falseio, dor e limitação funcional. Anatomia
- Tamanho de 31 – 35 mm
- Estrutura intra-articular e extra-sinovial.
- Origina na região mais medial do côndilo femoral lateral e insere na região mais anterior da tíbia, bem próximo do corno anterior do menisco lateral.
- Possui duas bandas, sendo que o nome dela deriva de em qual parte da tíbia ela insere: Anteromedial e posterolateral.
- O footprint (largura da inserção) é MAIOR NA TÍBIA e menor no fêmur (talvez justifique o porquê rompe mais no fêmur).
- O LCA é composto basicamente de COLÁGENO DO TIPO 1 + água

→ Vascularização e inervação
- Vascularização → Artéria geniculada média
- Inervação → Nervo articular posterior (ramo do nervo tibial) → Mecanorreceptores

→ Biomecânica
- LCA é restritor PRIMÁRIO do movimento anteroposterior (especialmente com joelho em 90º).
- LCA é restritor secundário do movimento de rotação interna e varo/valgo
· Banda anteromedial fica tensa em FLEXÃO
· Banda posterolateral fica tensão em EXTENSÃO

Obs: lembrar do exame físico e dos graus de flexão do joelho ao executar as manobras; Lachman (flexão de 30º) testa mais a banda posterolateral; Gaveta (flexão de 90º) testa mais a banda anteromedial.

- História do paciente com lesão lca
→ Paciente geralmente jovem com história de trauma esportivo (desaceleração súbita, salto, entorse) com mudança brusca de direção (70-80%) → Sensação de “luxação/subluxação” e paciente escuta um ESTALIDO.
→ Após, inicia com incapacidade funcional (dificuldade para deambular), bastante DOR.
→ Evolui rapidamente com HEMARTROSE
· Lesão de LCA é a principal causa de hemartrose → 78%
· Outras causas são luxação de patela e fratura intra-articular.
- Mecanismo de trauma
→ Mecanismo de trauma mais comum
· Fêmur em rotação interna
· Tíbia em rotação externa
· Força associada de flexão + valgo
· Quando ocorre lesão desse tipo, o característico é evoluir com contusão óssea (Bone Bruises) na parte central do côndilo lateral femoral e na parte posterolateral do platô lateral.

→ Outra forma de lesar o LCA é por HIPEREXTENSÃO (“Kissing”)
→ Se o mecanismo for esse, a contusão óssea é DIFERENTE. O edema da medula óssea se localiza ANTERIOR tanto no côndilo femoral quanto tíbia.

-Diagnóstico
→ História de trauma
→ Após a fase aguda, o que é mais característico de lesão de LCA é a queixa de INSTABILIDADE (SENSAÇÃO DE FALSEIO).
Obs: paciente também pode queixar de dor, especialmente se tem lesões associadas. Mas o que é mais característico é a instabilidade.
- Exame físico
→ Avaliação da marcha → Ver se tem presença de flambagem (desvio para lateral do joelho durante a marcha → indica insuficiência lateral).
→ Avaliação do alinhamento → Inclusive presença de varo acentuado é causa de falha do tratamento (corrigir primeiro o eixo e depois o LCA).
→ Trofismo muscular
→ Amplitude de movimento → Para indicar cirurgia é necessário extensão completa e conseguir flexão.

→ Testes especiais
· Lachman
◦ Teste mais sensível (95%)
◦ Flexão de 30º
◦ Uma mão na tíbia e outra no fêmur, deve anteriorizar.
◦ Sempre comparar com o contralateral.
◦ Avalia mais a banda posterolateral

· Gaveta anterior
◦ Quadril 45º, joelho em 90º - avaliar mais a banda anteromedial
◦ Deve ser feito em três situações: neutro, rotação externa 30º do pé, rotação interna.
◦ Segura com os polegares a parte anterior da tíbia e o resto da mão abraça a parte posterior. Anteriorizar a tíbia em relação ao fêmur.
◦ Considerado positivo quando anterioriza 6 a 8 mm em relação ao contralateral.

Podemos quantificar a manobra da gaveta anterior com rotação neutra em quatro graus:
grau O, não havendo frouxidão detectável;
grau 1, existindo excursão tibial mínima com parada firme (end point);
grau 2, ao verificar-se excursão tibial pronunciada com parada pouco firme;
grau 3, havendo excursão tibial pronunciada sem qualquer resistência.
Obs: Em pacientes com lesão do LCP a tíbia fica mais posteriorizada. Logo, quando puxa para a frente sai de situação de subluxação posterior para redução, o que pode causar a impressão de gaveta anterior positivo.
Obs: Quando está em rotação interna os cruzados estão tensos – LCA e LCP. Se na rotação interna tiver só lesão do LCA, não vai vir muito. Para ficar positivo precisa ter lesão dos dois associados.
1. Rotação interna tibial associada a gaveta anterior com 90º de flexão:
• Grau I: esta manobra, quando negativa, poderá mascarar uma lesão do LCA, pois as estruturas posterolaterais, o trato iliotibial e, em especial, o LCP, nessas condições, ficam tensionados, bloqueando a excursão anterior da tíbia.
• Grau lI : ruptura do LCA associada a lesão do complexo arqueado e do trato ílio tibial.
• Grau IlI: ruptura do LCA associada a lesão do LCP, de estruturas laterais e posterolaterais.
2. Rotação neutra tibial associada a gaveta anterior com 90º de flexão:
• Grau I: LCA pode estar íntegro.
• Grau lI : possível ruptura do LCA.
• Grau IlI: ruptura do LCA e possíveis lesões dos compartimentos lateral e medial.
3. Rotação externa tibial associada a gaveta anterior com 90º de flexão:
• Grau I: o LCA pode estar íntegro e as estruturas medial e posteromedial intactas.
• Grau lI : ruptura de LCA e parcial das estruturas medial e posteromedial .
• Grau IlI: ruptura do LCA e das estruturas med ial e posteromedial.
Obs: Em rotação externo avalia estabilidade anteromedial do joelho → Também chamado de teste de Slocum
· Teste de Pivot-shift (Mcintosh)
◦ Teste mais específico
◦ Começa em extensão, faz rotação interna da perna, força em valgo o joelho e vai fletindo. Quando chega em 30 de flexão ocorre uma redução
Obs: Isso ocorre porque quando tem a extensão, o trato iliotibial acaba anteriorizando a tíbia (porque o restritor primário – LCA – está ausente). Quando chega em 30º de flexão, o momento de força é neutralizado e o joelho vai para a redução.

Teste de Jerk (Hughston)
JERK - > Joga pra dentro (valgo) Estende Roda interno K – INSTABILIDADE ANTERIOR
Avalia: Lesões do LCA (subluxação anterior da tíbia, que se reduz pela ação do trato iliotibial).
Posição do Paciente:
· Decúbito dorsal (supino);
· Quadril flexionado a 45°;
· Joelho flexionado a 90°.
Execução:
1. O examinador segura o pé do paciente em rotação interna;
2. Com a outra mão, aplica um discreto valgo no 1/3 proximal da tíbia;
3. Progressivamente, estende o joelho enquanto mantém o valgo e a rotação interna;
4. Observa-se um ressalto articular repentino, indicando a subluxação ântero-lateral da tíbia, que permanece até a extensão total.

Observação:
· Este teste é o inverso do Pivot-shift, começando em flexão e progredindo para extensão para induzir a subluxação.
- Exames de imagem
→ Radiografia
· Sinal de Segond → Patognomônico de lesão do LCA. Fratura anterolateral por avulsão do planalto tibial. Quem avulsiona é o ligamento antero lateral

→ Ressonância Magnética – Acurácia de 93%
· Primários
◦ Hipersinal difuso ou localizado em T2
◦ Descontinuidade do ligamento
◦ Trajeto anormal do LCA
▪ O normal é as fibras do LCA serem paralelas à linha de blumensat. Quando tem a perda de paralelismo indica lesão LCA.

· Secundários
◦ Presença de contusões ósseas
▪ Especialmente na face posterolateral do platô lateral e na face lateral do côndilo lateral.
◦ Anteriorização relativa da tíbia
▪ Como a função do LCA é restringir movimentação em AP, a lesão faz com que haja uma anteriorização relativa da tíbia.

◦ LCP “curvo”
▪ Porque o LCA “cai” e fica embaixo do LCP, que aparenta mudar sua trajetória.
◦ Sinal da incisura vazia
▪ Líquido no local que deveria ser a inserção do LCA.

- Lesões associadas
· Menisco → 50 a 70 % dos casos
◦ Na lesão aguda → menisco LATERAL (lembrar que a inserção é próxima - “dividem aluguel”).
◦ Na lesão crônica → menisco MEDIAL (por ser maior o corno posterior, tem maior função de estabilização na ausência do LCA).
◦
Macete: “A”guda – L”A”teral
· Osteocondral → 21 – 31 % dos casos
· LCM ou LCL → 5 a 24 % dos casos

- História natural de artrose e lesão do LCA
· Lesão do LCA → Instabilidade → Lesões osteocondrais + aumento de inflamação (interleucina 1 e fator necrose tumoral-alfa) + lesões meniscais → Artrose
- Fatores de risco para lesão
· Mulheres > Homens
· Hipotrofia muscular
· Ciclo ovulatório → Em alguns momentos do ciclo menstrual da mulher o joelho tem maior chance de lesão.
· Frouxidão ligamentar
· Avaliação do Notch intercondilar → Quanto mais estreito, maior chance de lesão.
◦ Como avaliar? Fazendo a razão entre o tamanho do intercôndilo com o total do fêmur.

· Slope tibial aumentado → Maior inclinação → Mairo o deslizamento anterior Maior chance de lesão

- Tratamento
Tratamento inicial nos casos agudos é protocolo PRICE após melhora parcial, reavaliação e decisão cirúrgica
→ Sempre avaliar demanda funcional e a clínica do paciente.
· Conservador
◦ Paciente baixa demanda, alto risco cirúrgico, idosos (se baixa demanda, paciente assintomático, por exemplo - não senti falseio)
◦ Nível de atividade prévia → apenas 35% conseguem retornar ao nível de atividade prévia com conservador.
· Cirúrgico
◦ Instabilidade anterior do KT-1000 → > 3 mm → Cirúrgico
◦ Alta demanda elevada pré-lesão → Cirúrgico
◦ Estilo de vida (idoso ativo) → Cirúrgico
→ Qual tratamento?
· Reparo
◦ Fazer em casos de avulsão óssea.
◦ Ligamento está integro, ele apenas avulsinou
· Reconstrução
◦ Extra-articulares
◦ Intra-articular
Critérios para poder fazer uma reconstrução intra-articular do joelho
- Extensão completa / Flexão de no mínimo 90°
- Marcha normal
- Força quadríceps
- Edema mínimo
Reconstrução Artroscópica
→ Qual enxerto?
- Auto-enxerto
- Baixa reação adversa, 50% de resistência
- Patelar, flexores, quadríceps
Aloenxerto
- Menor morbidade
- Incorporação lentar
- Transmissão de doenças
Obs: sintéticos ainda são pouco usados.
· Patelar
◦ Usa o terço médio do tendão patelar.
◦ Tira um pedaço de osso → Faz integração osso-osso
◦ Problema → Dor anterior residual
◦ Carga de tração (2300 N)
· Flexores (semitendíneo e grácil)
◦ Quádruplo (roda um com o outro)
◦ Carga de tração maior que o patelar (4180 N)
◦ Problema → Sem fixação óssea (mais difícil integrar)
◦ Problema → Perda de força em “Sprinters” (fazem aceleração súbita).
A espessura do enxerto para a reconstrução do LCA é de suma importância, havendo uma relação direta entre a sua espessura e o menor risco de lesão recorrente. Uma técnica que pode ser utilizada é a realização de enxertos quíntuplos, sendo triplo o semitendíneo e duplo o gracilis para aumentar o diâmetro total do enxerto. Na Figura 129.4 é possível observar um enxerto composto por três bandas do tendão semitendíneo.
→ Quais pontos usar para colocar o enxerto?
· Técnica anatômica (Padrão ouro) → 10 horas (joelho D)
◦ Faz túnel femoral por outro acesso ou de fora para dentro.
◦ Melhor controle rotacional e translação anterior)
· Técnica isométrica (não anatômica) → 12 horas (enxerto verticalizado)
◦ Estabiliza muito bem anteroposterior (Lachman -)
◦ Estabiliza mais ou menos instabilidade rotatória (Pivot-shift pode ficar +)
→Túnel femoral
· Cuidar para não ficar anterior - “muito pra frente” → Porque pode ficar muito tenso em flexão
· Cuidar para não ficar posterior - “muito pra trás” → Porque pode ficar muito tenso em extensão
· IDEAL → Ficar um pouco posterior a crista do residente.
→ Túnel tibial
· Referenciais possíveis: 1cm anterior ao LCP; borda posterior do corno anterior do ML; 50-70º coronal
· Se o enxerto ficar muito anterior → Limita a extensão (Impingement)
· Se o enxerto ficar muito posterior → Impingement LCP

→ Como fixar?
· Parafuso de interferência
◦ “Prensar” o enxerto na parede até que ocorra a osteointegração.
◦ O enxerto precisa estar “tenso” na hora de passar o parafuso.
· Endobutton

-> Impingment
- Ocorre quando o túnel tibial fica muito anteriorizado.
Resulta na limitação de extensão devido conflito do enxerto com o teto do intercôndilo.

- Reconstrução extra-articular
→ Ligamento anterolateral do joelho
- Espessamento da cápsula que serve como “auxílio” ao LCA.
- Em pacientes que tem “pivot-shift explosivo” (Grau 3) apresenta melhor resultado se reconstruir junto com o LCA.

Indicações (LCA + LAL)
- Pivot-shift GRAU III- Nível de atividade- Esportes "pivotantes"- Revisão de LCA- Segond associado
Complicações de cirurgia LCA
· Perda de ADM → Perda de EXTENSÃO (se túnel tibial muito anterior)
· Dor anterior residual → Sobretudo se enxerto for patelar
· Artrofibrose → Fazer cirurgia sem ADM adequada; fisioterapia inadequada.
· Infecção → Rara (62% é Estafilo coagulase negativa, 21% é S. aureus)
· Rotura do enxerto
· Falha na reconstrução do LCA – o principal é o erro do túnel femoral



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